/ José Manuel dos Santos /

José Manuel dos Santos
Masco Corporation
Design Director

Designer industrial de formação, gestor de design por experiência e empreendedor por vocação, José Manuel dos Santos é um campeão do design, um agente internacionalmente reconhecido no campo da inovação pelo Design. Com um mestrado em design pela Central Saint Martins / UK, iniciou a sua actividade na extinta Novodesign como designer e deixou a empresa como director executivo de uma unidade de negócio, dando assim inicio ao seu percurso como gestor de design e de negócio, que inclui a fundação de 2 empresas de referencia na área do design industrial – Grandesign e Diverge e, experiencias de direcção de design em empresas nacionais e internacionais de renome – CDN / Node em Barcelona e Innovagency em Lisboa. Depois de uma relação profissional de estratégia de produto com a Delta Q nos últimos 3 anos, marca de café em cápsula da Delta Cafés, foi convidado a liderar a unidade de negócio, um desafio exigente e ambicioso de liderar também este segmento de café. Um homem generoso, pai de dois filhos, membro fundador de duas associações sem fins lucrativos, participante incansável em eventos internacionais onde aporta valor e dignifica o nome de Portugal e do design feito em Portugal.

  • 1
    Como avalia os resultados da política de Inovação em Portugal?
    2
  • a)
    Quais os principais desenvolvimentos positivos das políticas de inovação em Portugal?
    As medidas inscritas nos diferentes "Passaportes" que foram aprovados pelo Governo para estimular o emprego jovem e que deverão entrar em vigor em breve e abranger ao todo 90 mil jovens. Não existe tempo suficiente para saber qual o impacto destas medidas e se conseguirão realmente abrandar o crescimento do desemprego jovem qualificado, mas a introdução das medidas demonstra atenção a um grave problema com ramificações de toda a ordem.
  • b)
    Quais os constrangimentos com que se deparou?
    Creio que o maior constrangimento mesmo é a falta de confiança, quer a nível individual quer como um todo, que somos capazes de ultrapassar esta crise, que somos capazes de evoluir para uma sociedade mais justa, mais equilibrada, mais transparente e que reconheça o talento e recompense o mérito.

    Claro que a inexistência de apoios financeiros a custo justo e a aparente inércia e falta de investimento dos agentes que teriam possibilidade de o fazer aumentam ainda mais a noção de incapacidade e o descrédito das instituições.
  • c)
    Indique os principais aspectos em que a política de Inovação tem contribuído, ou não, para a competitividade do País.
    Existem medidas, tentativas mais ou menos orquestradas para melhorar a competitividade do País, mas devo dizer que em meu entender não vejo sinais de uma verdadeira política de inovação. Talvez porque o próprio termo em si liga algo que devia ser estratégico e a médio/longo prazo à política a que estamos habituados, de curto prazo e muitas vezes mais contra política que outra coisa.

    Não tenho visto sinais de melhoria de vitalidade num sector que me é muito caro e que suporta a inovação e o design industrial, mas também as engenharias, a formação, a propriedade intelectual e muitas outras, o sector da indústria. Por motivos politicamente explicados mas que todos reconhecem como erro crasso, desmontámos a nossa capacidade produtiva e não vejo sinais de recuperação, nem numa fase onde muitos dos países com produção na Ásia regressam à produção local.
  • 2
    Indique quais foram, em sua opinião, os principais factos ocorridos no último semestre que influenciaram a política de inovação em Portugal.
    Pela positiva:
    Maior atenção dos media à inovação e empreendedorismo individual, nas micro e pequenas empresas, reconhecimento de que é aqui que acontece muita da inovação que incentiva e promove o País.

    Pela negativa:
    O abandono do SIMPLEGIS, um programa que tinha por missão resumir na Internet em Português claro e acessível (e inglês) as leis e que nos regem. Um sinal de contra política cega e de retrocesso.
  • 3
    Indique as principais inovações, a nível nacional e internacional, que mais o marcaram nos últimos 6 meses.
    Em Dezembro de 2012 o Presidente dos EUA aprovou uma lei que aumenta o prazo e redefine as patentes de design ou modelos de utilidade. Se bem que as medidas aprovadas tendem a proteger o design feito nos EUA, a sua adaptação noutros contextos legais e a possibilidade de um designer proteger nos EUA um seu desenho torna esta inovação interessante de acompanhar.

    A explosão do fenómeno do "crowd funding" ou financiamento colectivo, como meio alternativo de lançamento de produtos e serviços no mercado global através da Internet, sem com isso perder o controlo das mesmas (o financiamento é nos produtos/serviços). Apesar de faltar ainda legislação que suporte melhor este tipo de empreendedorismo, é sem dúvida uma inovação a acompanhar.
  • a)
    Estimulam o empreendedorismo em Portugal
    1) A nossa herança arquitectónica, a sua recuperação e transformação em prol de um turismo que aprecie.
    2) A nossa riqueza de ligações à lusofonia, de forma equilibrada com os diferentes países.
    3) A nossa capacidade de inovar e de empreender ao nível das micro e pequenas empresas.
    4) A nossa capacidade de emigrar e vencer noutros destinos, sem cortamos com o País nem perdermos a identidade (vejam o aumento das remessas de emigrantes).
  • b)
    Dificultam o empreendedorismo em Portugal.
    1) Demasiadas organizações a competirem pelo mesmo espaço de apoio e suporte, sem nenhuma coordenação aparente nem resultados que justifiquem a sua existência.
    2) Entidades que alteram as regras do jogo a meio do jogo, que escondem as regras ou as tornam simplesmente obscuras.
    3) Insistência num sistema onde quem tem capital tem acesso a mais capital e quem não tem capital, não.
    4) Capital de investimento parado, localmente ou em paraísos fiscais, sem aplicação no desenvolvimento do País, refém da falta de mecanismos de gestão de risco modernos.
    5) Falta de planeamento e de execução à altura das ideias e do talento criativo que temos.
  • 5
    Que medidas teria incluído no Orçamento de Estado para 2013, para estimular práticas e apostas na Inovação ao nível das empresas?
    Continuo a achar que as empresas precisam de exportar cada vez mais, ao mesmo tempo que devem apostar no preenchimento quase total das necessidades locais para equilibrar a nosso favor a balança de pagamentos.

    Para exportar, e estando cientes que alguns dos países destino típicos estão com tendências de redução de importações, é preciso conhecer os mercados destino e criar redes de pessoas locais, capazes e transparentes. Todas as medidas que permitam aos empresários fazerem isto com mais agilidade e eficácia são imprescindíveis.

    No que toca à importação, a identificação dos maiores importadores e o desenho de medidas que por um lado lhes permitam montar localmente redes e clusters de fornecimento, por outro lhes dificulte ou até proíba de importar quando exista oferta local são medidas igualmente imprescindíveis. O primeiro a dar o exemplo devia ser o Estado, comprando local mesmo que isso obrigasse a investimento no tecido empresarial.
  • 6
    Quais as prioridades das organizações que dirige/acompanha face à actual conjuntura do País?
    Dirijo uma organização num outro continente onde o design é usado como ferramenta estratégica para oferecer produtos inovadores e altamente competitivos para o consumo em massa. A empresa pertence ao grupo das eleitas na Fortune 500, a pressão dos accionistas e uma crise global coloca desafios afinal não muito distantes dos nossos em Portugal.
    Este ano as prioridades são 4:
    1) Reforço de negócios "core" (ir para além do óbvio).
    2) Optimização inteligente (atenção às pessoas, tolerância "0" aos desperdícios).
    3) Crescer na Internet (em conjunto com os nossos parceiros "brick & mortar").
    4) Investimento em Design e Marca (com investigação sobre novos segmentos, novas necessidades, novos produtos).
    Nada de novo alguns dirão, mas colocar estas prioridades preto no branco, suportá-las com medidas claras e fazer a performance (e bónus...) depender delas permite avançar ano a ano de forma resoluta.
  • 7
    Qual deve ser o papel da Inovação para ultrapassar as dificuldades defrontadas pelo nosso País?
    Não vejo outra alternativa. No entanto preferia que não nos referíssemos à inovação como a cura miraculosa para uma crise multi dimensional, global e profunda. Já o design sofreu com o mesmo tipo de atenção, e da mesma forma como existiram e existem empresas que morrem de excesso de design, existem e existirão empresas que morrem de excesso de inovação. Na maioria dos casos trata-se de excesso de teoria sobre a inovação e pouca prática, e tipicamente muita inovação de um tipo e pouco de outro(s). Sou adepto do chamado piano de Doblin, com as quatro vertentes de inovação – modelo de negócio, processo, oferta e entrega. O design tem maior impacto na oferta, mas por si só não permite inovação sustentável.